O Valência era isto. Benítez, longe do homem enfadonho e de competência duvidosa actual, construiu a sua obra prima nos primórdios da carreira. O seu mais belo produto foi criado quando apareceu vindo dum mediano Tenerife e sem grandes credenciais. Rafa era um homem diferente, de ideias completamente opostas. O seu Valência foi uma das equipas da minha infância.
De meio-campo povoado e transições á velocidade da luz, Rafa pegou numa derrotada europeia e levou-a ao topo de Espanha e do continente. Com 43 anos, ganhava a Taça Uefa e o futuro podia ser seu: e realmente tudo indicava isso, quando dois anos depois ganha a Champions com o seu Pool. Dono de equipas maravilhosas, o seu nome ficará irremediavelmente ligado a um doblete histórico e á final mais electrizante de sempre. Porquê o momento actual, Rafinha?
Assente num 4-2-3-1, aquele Valência subiu a pulso nas classificações da exigente La Liga com um futebol rendilhado e ao primeiro toque. Albelda nas coberturas e Baraja a libertar-se do miolo com chegada á frente, apoiando 3 irrequietos executantes: Vicente, wonderkid que pode agradecer a sua carreira ao gorducho treinador, Deus e Rufete. O centro do terreno era o segredo da orquestra mais bem comandada na Ibéria de principio de milénio.
Quando chega á terra das laranjas em 2001, preocupa-se em construir a sua obra por baixo. Por trás, neste caso. É campeão a 34 jornadas com a melhor defesa, mas o ataque era... inofensivo: apenas 51 golos. Havia uma clara preocupação em controlar a partida e aproveitar sempre as melhores circunstâncias: a equipa é campeã das vitórias por margem mínima.
A época do Doblete é o aprimorar daquela máquina já de si eficaz mas com pouco poder de tiro. Benítez consegue manter a coesão defensiva, sofre os mesmos golos (27). Á frente, a situação altera-se radicalmente fruto da explosão finalizadora dos extremos. com Vicente a destacar-se no capitulo da finalização quando até aí era apenas um extremo de linha sem qualquer noção de baliza.
No Mestalla, morava uma das equipas mais apaixonantes da Europa á altura, só superada pelo Arsenal invencível. Tinha uma aura muito própria, uma identidade que se destacava pelo futebol jogado e pelos seus maiores símbolos: o morcego num equipamento laranja berrante e os patrocínios que se tornaram símbolos do clube e que só ajudaram ao mito.
Por muito que a nossa memória nos falhe, uma blusa Nike com Terra Mitica na frente será sempre o Valência. Para quem cresceu sentado no sofá a ver estes senhores a enfardar em Villareais e Sevilhas, não há como esquecer trivialidades destas. O futebol era mais bonito e Benítez ainda era um treinador de topo, onde tudo fluía naturalmente.
O amor é uma coisa estranha.
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