Estamos em plena época das semanas da moda europeias, onde as
cidades de Paris, Milão e Londres constituem o palco das mais recentes criações
dos mais conceituados estilistas do mundo da moda. Trata-se de um evento
bastante ansiado pelos amantes da moda e styling, e deste modo, a Fashion Week
tornou-se ao longo dos anos, um dos eventos de moda mais conceituados da
atualidade.
No entanto, quando o
tema “semana da moda” ou, na verdade, quando qualquer tópico relacionado com
moda é referido, quer em artigos como este, quer numa mera conversa entre
amigos, é em inúmeras situações facilmente interpretado como algo fútil,
superficial e vazio de conteúdo. Embora esse problema seja causado única e
simplesmente pela nossa sociedade atual e pela existência de determinadas
mentalidades específicas, trata-se de uma realidade e não há como fugir dela.
Ou talvez haja. Talvez se deva começar a encarar a moda de uma forma mais
“outside the box”. Não como “um conjunto de raparigas e rapazes que
simplesmente desfilam numa passerelle com roupas de outros e que ganham
dinheiro com isso”. Sim, esta é a mentalidade de inúmeras pessoas,
infelizmente. Aliás, o pensamento é ainda mais pessimista quando se faz
referência às mulheres deste mundo. A primeira conceção, embora seja algo
legítimo, são as modelos com distúrbios alimentares e o ridículo tipo de corpo
dito “perfeito” que a indústria da moda parece impingir à sociedade, bem como a
sua influência na geração atual feminina. No entanto, embora este seja um
problema legítimo e inegável, não é ele que caracteriza o mundo da moda. A moda
não é isto. A moda é arte, a moda é indústria, a moda é história, progresso e
inovação. Então e se a encararmos tal como ela é? Como uma arte tão legítima
quanto o cinema, a música, a pintura, a dança e até a literatura? E se a
encararmos como uma indústria que sofreu inúmeras revoluções e inovações até
chegar aos dias de hoje? E se nos lembrarmos que as mulheres da moda não são
apenas as modelos, mas sim as estilistas, que revolucionaram esta indústria, e
que deste modo, alteraram o modo de viver de mulheres e homens por todo o mundo
nas mais distintas épocas? Com este artigo venho falar exatamente disso, do
facto da moda ser uma das mais importantes indústrias do mundo, bem como das pessoas
que se envolvem nela e que a revolucionaram ao longo dos tempos.
Comecemos com Gabrielle “Coco” Chanel. A estilista francesa foi responsável
por uma enorme e marcante transformação no vestuário feminino, acrescentando
peças da alfaiataria na época da Segunda Guerra Mundial. Na década de 20, mais
conhecida como “os loucos anos 20”, Chanel criou peças bastante versáteis e práticas,
que permitiam às mulheres uma maior mobilidade, libertando-as das roupas
rígidas que eram características até à data, e permitiu igualmente que as
mulheres utilizassem peças que anteriormente seriam exclusivas do guarda-roupa
masculino, como as calças, o que lhes proporcionou, embora apenas de uma
forma abstrata, uma expressão do ideal de autonomia que tanto desejavam na
época em questão. Umas das suas criações mais icónicas é o
emblemático LBD (Little Black Dress), peça essa considerada atualmente um dos
essenciais de qualquer guarda-roupa feminino.
De seguida, falemos de Miuccia Prada,
uma ex-militante do Partido Comunista Italiano e formada em Ciência Política.
Miuccia herdou da família a indústria Prada, até então marca produtora de
bagagens, bolsas e artigos de couro, e transformou-a numa marca de malas (de
mão e de viagem) e baús feitos à mão. Mais tarde começou a desenhar roupas e a
Prada tornou-se numa das marcas de moda mais consagradas do mundo, de renome
mundial e numa potência poderosíssima de moda, que lança tendências, produz
conceitos e move multidões, sendo considerada um símbolo de luxo e status. No
entanto, por mais feminina que seja a marca, a estilista tem sempre como
objetivo principal escapar um pouco das coleções ditas sensuais, focando-se
numa moda intelectual, para mulheres inteligentes, bem informadas e inovadoras,
o que mais uma vez desmente um pouco o estereótipo que é imposto à moda e às
estilistas, mostrando que moda pode também significar inteligência, poder,
atitude. A editora da Vogue americana, Anna Wintour, chegou a declarar que
“Prada é o único motivo para alguém assistir à semana de moda de Milão”.
Falemos agora de Mary Quant, uma
estilista britânica que na década de 60 foi a responsável pela criação da
mini-saia. Na sua juventude, Mary criava as suas próprias roupas, e começou a
comercializá-las pois considerava a moda daquela época “terrivelmente feia”.
Mais tarde, criou um diminuto pedaço de pano que acabaria por revolucionar totalmente
o guarda roupa feminino: a mini-saia. As saias até então usadas por todas as
mulheres tinham aproximadamente 30cm de comprimento nada tinham a ver com esta
peça, o que simbolizou um choque radical na época e na sociedade em
questão. No entanto, o choque gera sempre a mudança, e em poucos anos, Mary
Quant expandiu esta tendência de uma forma absolutamente voraz, com milhares de
pontos de venda em todo o mundo. A sua loja tornou-se então, o símbolo da
vanguarda dos anos 60 e 70.
Stella McCartney, filha do grande
ex-beatle Paul McCartney, é uma estilista britânica e, para além de ter tido a
sorte de estagiar com Christian Lacroix aos 15 anos e ter trabalhado com Tom
Ford na Gucci, em 2001, criou a marca de luxo que tem o seu nome, e Stella é
conhecida por ser a porta-voz dos direitos dos animais e por não utilizar pele
nem couro nas suas coleções, sendo a pioneira da moda vegan e ambientalmente
consciente, tendo assim um papel importantíssimo na defesa dos animais, numa indústria
que, sejamos sinceros, consegue ser por vezes muito cruel para com eles. Tudo
isto é algo bastante importante sendo que o uso de peles e couro nas coleções
dos estilistas constitui um dos temas mais polémicos que caracteriza o mundo da
moda. As suas coleções são caracterizadas pelo minimalismo, peças femininas com
toques andrógenos, tudo com o selo “Fur free fur”, ou seja, pele livre de pele.
Outra vanguardista foi a revolucionária
Vivienne Westwood. Foi considerada uma das pioneiras da moda punk na década de
70. Se Londres é considerada a capital da moda rock n’ rol, Westwood é
definitivamente uma das maiores responsáveis por este facto. A estilista fundou
a marca Let it Rock, com o propósito de marcar a diferença na indústria. E conseguiu.
O estilo punk, incluindo a moda BDSM (Bondage, Domination, Sadism and
Masochism), foi então caracterizado por roupas em couro com frases eróticas,
alfinetes, rasgões, pins de bandas punk e protestantes, tachas, coleiras,
látex, maquilhagem e penteados extravagantes, o que tornou todo este movimento
e este estilo num tremendo choque e numa revolução no mundo da moda na época em
questão. Vivienne chegou a vestir a histórica banda punk Sex Pistols, e
atualmente, é reconhecida como a maior representante da moda inglesa, com as
suas coleções excêntricas e provocadoras, que criticam a política e a sociedade
atuais.
Por último, mas não menos importante,
falemos agora de uma mulher com M grande, que demonstrou que depois do abismo,
é possível reerguer todo um império, até mesmo quando é considerado algo
impossível. Donatella Versace. Era a conselheira crítica e fonte de inspiração
para o seu irmão, Gianni Versace, e foi, até à morte do mesmo, a denominada
“grande mulher por trás de um grande homem” no que diz respeito à marca que
ambos desenvolveram, Versace. Em 1997, Gianni foi brutalmente assassinado, e
Donatella assumiu o papel de head-designer da marca, enfrentando inúmeros
obstáculos e reticências relativamente ao seu trabalho, dada a sua figura
polémica e excêntrica. No entanto, com o passar dos anos, Donatella,
mantendo-se polémica e sempre fiel a si mesma, confirmou ser a escolha certa
para assumir a marca e para o sucesso do seu empreendimento, tendo conseguido
reerguer o império Versace, sendo que ainda hoje comanda a marca e continua a
produzir grandes sucessos no mundo da moda atual.
Deste modo, é possível
concluir que de facto, se refletirmos corretamente, a moda consegue ter uma
conotação diferente da estereotipada. A moda é muito mais que modelos. A moda é
muito mais que roupas, passerelles, luzes, foco, notícias, distúrbios
alimentares, peles, droga, burla. A moda não tem de ser algo encarado como
fútil, vazio de conteúdo, supérfluo, sem importância, algo idiota ou como uma
perda de tempo. Quem critica este mundo desta forma tão radical, certamente
critica de olhos vendados, pois decerto desconhece todas as inúmeras
implicações sociológicas e psicológicas que envolvem todo este mundo. A
moda é indústria, cultura, história, inovação, quebra, criação. Com a sua
ciclicidade, e, no entanto, também com todas as suas mudanças, a moda retrata
transformações em relação a épocas, a culturas e sociedades, bem como a
indivíduos. A moda é eterna, mas tudo o que nela está contida é efémero. É
também possível concluir que na indústria da moda tanto homens como mulheres
podem assumir o mesmo papel e ter exatamente o mesmo sucesso, sendo que
qualquer uma das estilistas que referi acima podem ser associadas, por
semelhança ou disparidade, a estilistas como Giorgio Armani, Calvin Klein, Christian
Dior, Tom Ford, Valentino Garavani e Yves Saint Laurent, por exemplo. Ou seja,
mais uma vez, destruímos mais um dos estereótipos de que a moda seria feita para
as mulheres, quando na realidade a moda é feita para o mundo, independentemente
da idade, etnia, localização geográfica, religião, cultura, género e orientação
sexual.
A moda é de todos, para todos.







Um excelente ponto de vista! :)
ResponderEliminarMuito obrigada, fico feliz que tenha gostado! :)
EliminarMuito bom! Excelente artigo.
ResponderEliminarMuito obrigada, fico muito feliz que tenhas gostado!
EliminarParabéns pelo artigo e pela escrita fluída!
ResponderEliminarMuito obrigada, fico muito feliz que tenhas gostado! Beijinho
EliminarParabéns pelo artigo e pela escrita fluída!
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